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Valletta: a cidade-fortaleza onde a história de Malta ainda está viva

Caminhar pelas ruas de pedra, observando a arquitetura dos palacetes ou a diversidade de cores das varandas (balconies) de Valletta é um programa que quase todo mundo gosta de fazer na capital de um dos menores países do mundo, Malta. Eu também gosto, mas não foi por isso que me apaixonei pela cidade. 

Pisei pela primeira vez naquele lugar, em um sábado quente de verão. Fazia cerca de 38 graus celsius, o sol ardia na pele, mas as ruas estavam cheias. Eu tinha um destino certo: conhecer o Lowwer Barraka Gardens e depois o Upper Barraka Gardens, jardins situados na borda da cidade e com vista para o Grande Harbour.

Eu fui conhecer os jardins, mas Valletta tinha outros planos 

Enquanto caminhava rumo ao primeiro ponto turístico do meu roteiro daquele dia, me deparei com uma marcha marcial animada, cujos participantes tocavam instrumentos em uma rua toda decorada com flâmulas de São Domingos. Com o suor escorrendo por seus rostos, a festa seguia para a Igreja de Santa Maria de Porto Salvo e São Domingos de Gusmão, localizada na Rua Triq II Merkanti, Valletta.

Ou seja, mesmo que eu não quisesse parar, era impossível simplesmente continuar caminhando. E isso não acontece só em Valletta, mas em toda a ilha. Portanto, independente da cidade, semana ou mês, você sempre irá se deparar com uma festa religiosa, facilmente identificada por ruas decoradas, estátuas gigantes de santos, fogos de artifício e muito desfile musical .

Depois que a banda passou, eu continuei andando por Valletta para chegar no meu destino. Nas ruas com nomes de cavaleiros membros da Ordem de Malta, é comum se deparar com museus, igrejas e palácios. Afinal, a cidade fundada em 1566, pelo Grão-Mestre da Ordem de Malta, Jean Parisot de la Valette, é reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial devido à concentração de monumentos históricos e à arquitetura militar renascentista e barroca.

Uma cidade onde cada rua conta uma história 

Quando os Cavaleiros da Ordem de São João chegaram a Malta, em 1530, a capital da ilha era Mdina. Construída no alto de uma colina e longe do mar, a cidade tinha uma posição estratégica para proteger o território, mas os Cavaleiros precisavam de algo que ela não oferecia: uma fortificação junto ao mar.

O lugar escolhido foi o Monte Sceberras, uma península rochosa localizada entre dois portos naturais. Na época, ali existia apenas uma pequena torre de vigia, que mais tarde seria transformada no Fort St. Elmo.

Inicialmente, os Cavaleiros se instalaram na região do Grand Harbour, nas chamadas Three Cities, mas o Grande Cerco de 1565 mostrou que as defesas da ilha ainda precisavam ser reforçadas.

Vista para as Três Cidades

Durante meses, os Cavaleiros enfrentaram o Império Otomano até conseguirem resistir ao cerco. E, depois da vitória, o Grão-Mestre Jean Parisot de La Valette entendeu que Malta precisava de uma nova cidade: fortificada, planejada e voltada para o mar. E foi assim que, em 1566, começou a construção de Valletta.

Diferente de cidades europeias que cresceram aos poucos ao longo dos séculos, Valletta nasceu a partir de um plano. O engenheiro militar italiano Francesco Laparelli foi responsável pelo projeto urbano, com ruas organizadas e grandes fortificações que aproveitavam a posição estratégica da península. E, assim, a nova cidade recebeu o nome de Valletta em homenagem ao Grão-Mestre que liderou a resistência durante o Grande Cerco. 

Aos poucos, aquela fortaleza construída para proteger a ilha se transformou também em seu centro político, religioso, comercial e cultural, substituindo Mdina como capital do país. 

Por isso, enquanto se caminha por Valletta, você acaba encontrando história praticamente em cada esquina. Igrejas, palácios, ruas de pedra e as varandas coloridas fazem parte de uma cidade pensada, desde o início, para ser muito mais do que um lugar de defesa.

Mas Valletta ainda enfrentaria outra grande guerra. Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade foi fortemente bombardeada e muitos de seus edifícios foram danificados ou destruídos. Mais uma vez, Valletta precisou se reconstruir.

E talvez seja justamente essa capacidade de sobreviver às guerras e continuar de pé que explique por que, em 1980, a cidade foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial.

Hoje, suas muralhas já não precisam proteger Malta de exércitos. Mas continuam guardando as marcas de tudo o que a cidade viveu.

Vista do Upper Barrakka 

Valletta Malta lary di lua

Embora Valletta seja marcada pelos edifícios de calcário, palácios, igrejas e muralhas que contrastam com o azul do Mediterrâneo, dois pontos verdes se destacam na paisagem: o Upper Barrakka Gardens e o Lowwer  Barrakka Gardens.

Localizados sobre as antigas fortificações da cidade, os jardins foram construídos pelos Cavaleiros da Ordem de São João e, além de serem espaços de descanso, tinham uma função estratégica: dali era possível observar o Grand Harbour e as cidades de Vittoriosa, Senglea e Cospicua, conhecidas como Three Cities.

Hoje, o cenário é bem diferente daquele imaginado pelos Cavaleiros. Em vez de soldados observando possíveis inimigos, turistas se reúnem para contemplar o porto, tirar fotografias e observar a movimentação dos barcos.

Mas basta esperar um pouco para perceber que a história militar de Valletta ainda está presente. 

Todos os dias, ao meio-dia, um tiro de canhão é disparado a partir da Saluting Battery, localizada logo abaixo do Upper Barrakka Gardens. A tradição existe há séculos e, originalmente, os disparos tinham uma função prática: marcar o horário e auxiliar os navios que chegavam ao porto. Hoje, o disparo acontece diariamente ao meio-dia e às 16h e se tornou uma das experiências mais tradicionais para quem visita Valletta.

Do alto do jardim, a vista também ajuda a entender por que esse lugar foi tão importante para a história de Malta. De um lado, as muralhas e fortificações. Do outro, o Grand Harbour, um dos maiores e mais importantes portos naturais do Mediterrâneo. E foi justamente essa localização que fez de Malta um território tão disputado durante séculos.

Naquele sábado em que conheci a cidade pela primeira vez, eu cheguei aos jardins procurando apenas uma vista bonita. Acabei encontrando uma paisagem que ajudava a explicar toda a história que eu tinha acabado de contar.

E Valletta ainda tinha mais surpresa para mim. Em uma outra visita à cidade, pude presenciar um casamento acontecendo no Saluting Battery. Por alguns minutos, o mesmo lugar que um dia serviu para observar possíveis inimigos estava ocupado por convidados, vestidos esvoaçantes, flores, música e uma celebração.

Talvez essa seja uma das coisas que mais gosto em Valletta: a cidade conseguiu transformar antigos espaços de guerra em lugares de encontro, contemplação e celebração.

Quando a história vira festa

Se durante o dia Valletta parece um grande museu a céu aberto, à noite o clima de festa invade a cidade, seja pelas festas religiosas, seja simplesmente pelo verão.

As ruas ganham cores, os bares e pubs ganham luzinhas decorativas e palcos ocupam as praças, que se tornam pontos de encontro e celebração. Quando chega a noite, os fogos de artifício de alguma festa religiosa iluminam o céu e as pessoas continuam festejando pelas ruas animadas de Valletta.

Naquele verão, eu voltei a Valletta inúmeras vezes. Durante o dia, no final da tarde e à noite. E, em todas as vezes, pude perceber o quanto os malteses gostam de celebrar a vida: seja acompanhando a procissão de uma festa religiosa, seja cantando um rock clássico em algum festival de música na praça da Fonte dos Tritões, que recebe quem chega à cidade de forma majestosa.

No fim, Valletta não é apenas uma cidade que preserva a história de Malta. É uma cidade que celebra o passado e o presente, a fortaleza e o mar, o concreto e o verde.

Foi assim que eu entendi que, para conhecer Malta, era preciso olhar além das suas ruas de pedra. 

Era preciso prestar atenção ao que acontece nelas.

Fonte dos Tritões Valletta Malta lary di lua

Referência bibliográfica: https://heritagemalta.mt/ e https://church.mt/feasts-in-malta-and-gozo-in-2026/

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